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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lampião: O dragão da maldade, mito, história do cangaço

LAMPIÃO: HERÓI OU BANDIDO?

1898 – Virgulino Ferreira da Silva nasce em 4 de junho, na comarca de Vila Bela, atual Serra Talhada, Pernambuco. É o terceiro dos nove filhos de José Ferreira e Maria Lopes.
 
Lampião: O dragão da maldade

Um guerreiro visionário, destemido e inteligente. Ninguém nega as virtudes de Lampião. Agora pesquisadores questionam o verdadeiro papel histórico de Virgulino Ferreira por Lira Neto.
cangaco_lampi_o_e_maria_bonitaEles faziam do assassinato um ritual macabro. O longo punhal, de até 80 centímetros de comprimento, era enfiado com um golpe certeiro na base da clavícula – a popular “saboneteira” – da vítima. A lâmina pontiaguda cortava a carne, seccionava artérias, perfurava o pulmão, trespassava o coração e, ao ser retirada, produzia um esguicho espetaculoso de sangue. Era um policial ou um delator a menos na caatinga – e um morto a mais na contabilidade do cangaço. Quando não matavam, faziam questão de ferir, de mutilar, de deixar cicatrizes visíveis, para que as marcas da violência servissem de exemplo. Desenhavam a faca feridas profundas em forma de cruz na testa de homens, desfiguravam o rosto de mulheres com ferro quente de marcar o gado.
Exatos 70 anos após a morte do principal líder do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a aura de heroísmo que durante algum tempo tentou-se atribuir aos cangaceiros cede terreno para uma interpretação menos idealizada do fenômeno. Uma série de livros, teses e dissertações acadêmicas lançados nos últimos anos defende que não faz sentido cultuar o mito de um Lampião idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Virgulino não seria um justiceiro romântico, um Robin Hood da caatinga, mas um criminoso cruel e sanguinário, aliado de coronéis e grandes proprietários de terra. Historiadores, antropólogos e cientistas sociais contemporâneos chegam à conclusão nada confortável para a memória do cangaço: no Brasil rural da primeira metade do século 20, a ação de bandos como o de Lampião desempenhou um papel equivalente ao dos traficantes de drogas que hoje seqüestram, matam e corrompem nas grandes metrópoles do país.
Cangaceiros e traficantes
Foram os cangaceiros que introduziram o seqüestro em larga escala no Brasil. Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas. A extorsão era outra fonte de renda. Mandavam cartas, nas quais exigiam quantias astronômicas para não invadir cidades, atear fogo em casas e derramar sangue inocente. Ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Sempre foram implacáveis com quem atravessava seu caminho: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam oficiais militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam.
“A violência é mais perversa e explícita onde está o maior contingente de população pobre e excluída. Antes o banditismo se dava no campo; hoje o crime organizado é mais evidente na periferia dos centros urbanos”, afirma a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora do livro A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão. A professora aponta semelhanças entre os métodos dos cangaceiros e dos traficantes: “A maioria dos moradores das favelas de hoje não é composta por marginais. No sertão, os cangaceiros também eram minoria. Mas, nos dois casos, a população honesta e trabalhadora se vê submetida ao regime de terror imposto pelos bandidos, que ditam as regras e vivem à custa do medo coletivo”.
Além do medo, os cangaceiros exerciam fascínio entre os sertanejos. Entrar para o cangaço representava, para um jovem da caatinga, ascensão social. Significava o ingresso em uma comunidade de homens que se gabavam de sua audácia e coragem, indivíduos que trocavam a modorra da vida camponesa por um cotidiano repleto de aventuras e perigos. Era uma via de acesso ao dinheiro rápido e sujo de sangue, conquistado a ferro e a fogo. “São evidentes as correlações de procedimentos entre cangaceiros de ontem e traficantes de hoje. A rigor, são velhos professores e modernos discípulos”, afirma o pesquisador do tema Melquíades Pinto Paiva, autor de Ecologia do Cangaço e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Homem e lenda
Virgulino Ferreira da Silva reinou na caatinga entre 1920 e 1938. A origem do cangaço, porém, perde-se no tempo. Muito antes dele, desde o século 18, já existiam bandos armados agindo no sertão, particularmente na área onde vingou o ciclo do gado no Nordeste, território onde campeava a violência, a lei dos coronéis, a miséria e a seca. A palavra cangaço, segundo a maioria dos autores, derivou de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Assim como o gado, os bandoleiros carregavam os pertences nos ombros.
Um dos precursores do cangaço foi o lendário José Gomes, o endiabrado Cabeleira, que aterrorizou as terras pernambucanas por volta de 1775. Outro que marcou época foi o potiguar Jesuíno Alves de Melo Calado, o Jesuíno Brilhante (1844-1879), famoso por distribuir entre os pobres os alimentos que saqueava dos comboios do governo. Mas o primeiro a merecer o título de Rei do Cangaço, pela ousadia de suas ações, foi o pernambucano Antônio Silvino (1875-1944), o Rifle de Ouro. Entre suas façanhas, arrancou os trilhos, perseguiu engenheiros e seqüestrou funcionários da Great Western, empresa inglesa que construía ferrovias no interior da Paraíba.
Lampião sempre afirmou que entrou na vida de bandido para vingar o assassinato do pai. José Ferreira, condutor de animais de carga e pequeno fazendeiro em Serra Talhada (PE), foi morto em 1920 pelo sargento de polícia José Lucena, após uma série de hostilidades entre a família Ferreira e o vizinho José Saturnino. No sertão daquele tempo, a vingança e a honra ofendida caminhavam lado a lado. Fazer justiça com as próprias mãos era considerado legítimo e a ausência de vingança era entendida como sintoma de frouxidão moral. “Na minha terra,/ o cangaceiro é leal e valente:/ jura que vai matar e mata”, diz o poema “Terra Bárbara”, do cearense Jáder de Carvalho (1901-1985).
No mesmo ano de 1920, Virgulino Ferreira entrou para o grupo de outro cangaceiro célebre, Sebastião Pereira e Silva, o Sinhô Pereira – segundo alguns autores, quem o apelidou de Lampião. Como tudo na biografia do pernambucano, é controverso o motivo do codinome. Há quem diga que o batismo se deveu ao fato de ele manejar o rifle com tanta rapidez e destreza que os tiros sucessivos iluminavam a noite. O olho direito, cego por decorrência de um glaucoma, agravado por um acidente com um espinho da caatinga, não lhe prejudicou a pontaria. Outros acreditam na versão atribuída a Sinhô Pereira, segundo a qual Virgulino teria usado o clarão de um disparo para encontrar um cigarro que um colega havia deixado cair no chão.
O cangaço não tinha um líder de destaque desde 1914, quando Antônio Silvino foi preso após um combate com a polícia. Só a partir de 1922, após assumir o bando de Sinhô Pereira, Virgulino se tornaria o líder máximo dos cangaceiros. Exímio estrategista, Lampião distinguiu-se pela valentia nas pelejas com a polícia, como em 1927, em Riacho de Sangue, durante um embate com os homens liderados pelo major cearense Moisés Figueiredo. Os 50 homens de Lampião foram cercados por 400 policiais. O tiroteio corria solto e a vitória da polícia era iminente. Lampião ordenou o cessar-fogo e o silêncio sepulcral de seu bando. A polícia caiu na armadilha. Avançou e, ao chegar perto, foi recebida com fogo cerrado. Surpreendidos, os soldados bateram em retirada.
A capacidade de despistar os perseguidores lhe valeu a fama de possuir poderes sobrenaturais e, após escapar de inúmeras emboscadas, de ter o corpo fechado. No mesmo mês da tocaia de Riacho de Sangue, Lampião e seu bando caíram em nova emboscada. Um traidor ofereceu-lhes um jantar envenenado, numa casa cercada por policiais. Quando os primeiros cangaceiros começaram a passar mal, Virgulino se deu conta da tramóia e tentou fugir, mas viu-se acuado por um incêndio proposital na mata. O que era para ser uma arapuca terminou por salvar a pele dos cangaceiros: desapareceram na fumaça, como por encanto.
Mas o maior trunfo de Lampião foi o de cultivar uma grande rede de coiteiros. Isso garantiu a longevidade de sua carreira e a extensão de seu domínio. A atuação de seu bando estendeu-se por Alagoas, Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Lampião chegou a comandar um exército nômade de mais de 100 homens, quase sempre distribuídos em subgrupos, o que dava mobilidade e dificultava a ação da polícia. Em 1926, em tom de desafio e zombaria, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco, Júlio de Melo, propondo a divisão do estado em duas partes. Júlio de Melo que se contentasse com uma. Lampião, autoproclamado “Governador do Sertão”, mandaria na outra.
Há divergências – e discussões apaixonadas – em torno da figura histórica de Virgulino. Ele comandava sessões de estupro coletivo ou, ao contrário, punia indivíduos do bando que violentavam mulheres? Castrava inimigos, como faziam outros tantos envolvidos no cangaço? Há controvérsias. “Lampião não era um demônio nem um herói. Era um cangaceiro. Muitas das crueldades imputadas a ele foram praticadas por indivíduos de outros bandos. Entrevistei vários ex-cangaceiros e nenhum me confirmou histórias a respeito de estupros e castrações executadas pessoalmente por Lampião”, diz o pesquisador Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete livros sobre o cangaço.
As narrativas de velhos cangaceiros contrapõem-se à versão publicada pelos jornais da época, que geralmente tinham a polícia como principal fonte. Com tantas histórias e estórias a cercar a figura de Lampião, torna-se difícil separar o homem da lenda. “Acho que está justamente aí, nessa multiplicidade de olhares e versões, a grande força do personagem que ele foi. É isso que nos ajuda inclusive a entender sua dimensão como mito”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: Senhor do Sertão (Edusp).
“Lampião VP”
Um livro recentemente lançado na França promete aumentar a temperatura dessa discussão. Assinado pelo escritor Jack de Witte, Lampião VP, ainda sem editora no Brasil, compara a trajetória do Rei do Cangaço com a do traficante carioca Marcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, protagonista do livro-reportagem Abusado, best-seller do jornalista Caco Barcelos. “O que produz a violência das favelas? A miséria, a injustiça social, a polícia e os políticos corruptos. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos”, diz De Witte. O historiador e professor titular da Unicamp Jayme Pinsky adverte: “É um tanto simplista comparar cangaceiros e traficantes. Corre-se o risco de cometer o pecado historiográfico do anacronismo”. Leia-se: analisar um momento histórico com base em conceitos e idéias de outro.
Já foi moeda corrente entre os especialistas interpretar o “Rei do Cangaço” como um “bandido social”, expressão criada pelo historiador inglês Eric Hobsbawm para definir os fora-da-lei que surgiam nas sociedades agrárias em transição para o capitalismo. Em Bandidos (Forense Universitário), de 1975, Hobsbawn cita Lampião, Robin Hood e Jesse James como exemplos de nobres salteadores, vingadores ousados, defensores dos oprimidos.
A imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, quando a Aliança Nacional Libertadora citou Virgulino como um de seus inspiradores políticos. A tese foi reforçada em 1963 com o lançamento de um clássico sobre o tema, Cangaceiros e Fanáticos, no qual o autor, Rui Facó, justifica a violência física do cangaço como uma resposta à violência social. Na mesma época, o deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarava que Lampião era “o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”.
“Lampião não era um revolucionário. Sua vontade não era agir sobre o mundo para lhe impor mais justiça, mas usar o mundo em seu proveito”, afirma a também a historiadora Grunspan-Jasmin, fazendo coro a um dos maiores especialistas do cangaço da atualidade, Frederico Pernambucano de Mello. Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro, Mello diz que o cangaceiro e o coronel não eram rivais. Os coronéis ofereciam armas e proteção aos cangaceiros, que, em troca, forneciam serviço de milícia. Dois dos maiores coiteiros de Lampião foram homens poderosos: o coronel baiano Petronilo de Alcântara Reis e o capitão do Exército Eronildes de Carvalho, que viria a ser governador de Alagoas. “Aprecio de preferência as classes conservadoras: agricultores, fazendeiros, comerciantes”, disse Virgulino em uma entrevista de 1926.
Marqueteiro da caatinga
A idéia de que Lampião fosse um vingador também é contestada por Mello. Ele argumenta que, em quase 20 anos de cangaço, Lampião nunca teria se esforçado para se vingar de Lucena e Saturnino, o policial e o antigo vizinho responsáveis pelo assassinato de seu pai. De acordo com um dos homens de Virgulino, Miguel Feitosa, o Medalha, Saturnino chegara a mandar um uniforme e um corte de tecido com o objetivo de selar a paz entre eles. Um portador teria agradecido por Lampião. O mesmo Medalha dizia que o ex-soldado Pedro Barbosa da Cruz propôs matar Lucena por dinheiro. “Deixe disso, essas são questões velhas”, teria respondido Lampião. Segundo o autor de Guerreiros do Sol, os cangaceiros usavam o discurso de vinganças pessoais e gestos de caridade como “escudos éticos” para os atos de banditismo.
Apesar da vida árdua, quem entrava no cangaço dificilmente conseguia (ou queria) sair dele. Havia um notório orgulho de pertencer aos bandos, revelado também na indumentária dos cangaceiros. O excesso de adereços, os enfeites nos chapéus, os bordados coloridos foram típicos dos momentos finais do cangaço. Lampião era um homem bem preocupado com sua imagem pública, o que colaborou para que permanecesse na memória nacional. O Rei do Cangaço também era o rei do marketing pessoal. Assim como adorava aparecer em jornais e revistas, deixando-se inclusive fotografar e até filmar, fazia de seu traje de guerreiro uma ostensiva e vaidosa marca registrada. “Nisso, talvez apenas o cavaleiro medieval europeu ou o samurai oriental possa rivalizar com o nosso capitão do cangaço”, escreveu Pernambucano de Mello.
A antropóloga Luitgarde Barros enxerga aí um outro ponto em comum com a bandidagem atual: “Os traficantes também gostam de ostentar sua condição de bandidos e possuem um código visual característico, composto por capuzes e tatuagens de caveiras espalhadas pelo corpo”. A violência policial é outro aspecto que aproxima o universo de Lampião do mundo do tráfico. Como ocorre hoje nas favelas dominadas pelo crime organizado, a truculência dos bandoleiros sertanejos só encontrava equivalência na brutalidade das volantes – as forças policiais cujos soldados eram apelidados pelos cangaceiros de “macacos”. Nos tempos áureos do cangaço, não havia grandes diferenças entre a ação de bandidos e soldados. Não raro, eles se trajavam do mesmo modo – o que chegava a provocar confusões – e uns se bandeavam para o lado dos outros. Cangaceiros como Clementino José Furtado, o Quelé, abandonaram o grupo e foram cerrar fileiras em meio às volantes. O bandido Mormaço fez o movimento contrário. Havia sido corneteiro da polícia antes de aderir a Lampião.
Como é comum à história da maioria dos criminosos, uma morte trágica e violenta marcou o fim dos dias de Virgulino. Traído por um de seus coiteiros de confiança, Pedro de Cândida, que foi torturado pela polícia para denunciar o paradeiro do bando, Lampião acabou surpreendido em seu esconderijo na Grota do Angico, Sergipe, em 28 de julho de 1938. Depois de uma batalha de apenas 15 minutos contra as tropas do tenente José Bezerra, 11 cangaceiros tombaram no campo de batalha. Todos eles tiveram os corpos degolados pela polícia, inclusive Lampião e Maria Bonita. Durante mais de 30 anos, as cabeças dos dois permaneceram insepultas. Em 1969, elas ainda estavam no museu Nina Rodrigues, na Bahia, quando foram finalmente enterradas, a pedido de familiares do casal mais mitológico – e temido – do cangaço.

A saga de Lampião na caatinga

1898 – Virgulino Ferreira da Silva nasce em 4 de junho, na comarca de Vila Bela, atual Serra Talhada, Pernambuco. É o terceiro dos nove filhos de José Ferreira e Maria Lopes.
1915 – Começa a briga entre a família Ferreira e a do vizinho José Saturnino.
1920 – José Ferreira é morto. Virgulino e três irmãos (Ezequiel, Levino e Antônio) entram para o cangaço. Durante um tiroteio em Piancó (PB), ele é ferido no ombro e na virilha: são as primeiras cicatrizes de uma série que colecionará na vida.
1922 – Sinhô Pereira abandona o cangaço e Lampião assume o lugar do chefe. A primeira grande façanha é um assalto à casa da baronesa Joana Vieira de Siqueira Torres, em Alagoas.
1924 – Toma um tiro no pé direito, em Serra do Catolé, município de Belmonte (PE).
1925 – Fica cego do olho direito e passa a usar óculos para disfarçar o problema.
1926 – Visita Padre Cícero no Ceará e recebe a patente de capitão do “batalhão patriótico”, encarregado de combater a Coluna Prestes. Em Itacuruba (PE) é ferido à bala na omoplata.
1927 – Ataque do bando a Mossoró (RN). A cidade resiste. É uma das maiores derrotas de sua carreira.
1928 – A ação da polícia de Pernambuco faz com que atravesse o rio São Francisco e passe a agir preferencialmente na Bahia e em Sergipe.
1929 – Primeiro encontro com Maria Bonita, na fazenda do pai dela, em Malhada do Caiçara (BA).
1930 – Maria Bonita torna-se sua mulher e ingressa no bando. O governo da Bahia oferece uma recompensa de 50 contos de réis para quem o entregar vivo ou morto. Em Sergipe, é baleado no quadril.
1932 – Nasce Expedita, sua filha com Maria Bonita.
1934 – Eronildes Carvalho, capitão do Exército e coiteiro de Lampião, é nomeado governador de Sergipe.
1936 – O libanês Benjamin Abraão, ex-secretário de Padre Cícero, convence Virgulino a se deixar filmar no documentário Lampeão. O filme é recolhido pelo Estado Novo.
1938 – Em 28 de julho, o bando é cercado em Angico (SE). Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros são assassinados.

Artimanhas do cangaço
As estratégias e técnicas para despistar os inimigos
Embora seja inadequado referir-se aos cangaceiros como guerrilheiros – eles não tinham nenhum propósito político –, é inegável que lançaram mão de táticas típicas da guerrilha. Habituados a viver na caatinga, não eram presa fácil para a polícia, especialmente para as unidades deslocadas das cidades com a missão de combatê-los no sertão. Uma das maiores dificuldades de enfrentá-los era a de que preferiam ataques rápidos e ferozes, que surpreendiam o adversário. Também não tinham qualquer cerimônia em fugir quando se viam acuados. Houve quem confundisse isso com covardia. Era estratégia cangaceira.
Tropa de elite
Os bandos eram sempre pequenos, de no máximo 10 a 15 homens. Isso garantia a mobilidade necessária para a realização de ataques-surpresa e para bater em retirada em situações de perigo.
Calada da noite
Em vez de se deslocar a cavalo por estradas e trilhas conhecidas da polícia, percorriam longas distâncias a pé em meio à caatinga, de preferência à noite. Para evitar que novas vias de acesso ao sertão fossem abertas, assassinavam trabalhadores nas obras de rodovias e ferrovias.

Os apetrechos
Todos os pertences do cangaceiro eram levados pendurados pelo corpo. Como não se podia carregar muita bagagem, dinheiro e comida eram colocados em potes enterrados no chão, para serem recuperados mais tarde.
Raposas do deserto
Cangaceiros eram mestres em esconder rastros. Alguns truques: usar as sandálias ao contrário nos pés. Pelas pegadas, a polícia achava que eles iam na direção contrária (detalhe); andar em fila indiana, de costas, pisando sobre as mesmas pegadas, apagadas com folhagens; pular sobre um lajedo, dando a impressão de sumir no ar.
Peso morto
Com exceção de seqüestrados, quase nunca faziam prisioneiros em combate, pois isso dificultaria a capacidade de se mover com rapidez. Também não mantinham colegas feridos ou com dificuldade de locomoção.
Seu mestre mandou
Para resolver discórdias internas no bando, Lampião sempre planejava um grande ataque. Todos os membros do grupo se uniam contra o inimigo e deixavam de lado as divergências entre si.
Os infiltrados
Quem dava abrigo e esconderijo aos cangaceiros era chamado de coiteiro e agia em troca de dinheiro, de proteção armada ou mesmo por medo. Coiteiros que traíam a confiança eram mortos para servirem de exemplo.
Rota de fuga
As principais áreas de ação do cangaço eram próximas às fronteiras estaduais. Em caso de perseguição, eles podiam cruzá-las para ficar a salvo do ataque da polícia local.
Fogo amigo e inimigo
Durante os combates, havia uma regra fundamental: em caso de retirada, nunca deixar armas para o inimigo; nas vitórias, apoderar-se do arsenal dele.
Deus e diabo na terra do sol
A noite em que Padre Cícero conversou com Lampião
Ali estavam, frente a frente, pela primeira e única vez, Lampião e Padre Cícero, os dois maiores mitos de toda a história nordestina. Uma terceira figura mitológica era indiretamente responsável por aquele encontro inusitado: Luís Carlos Prestes, o comandante da Coluna Prestes, movimento militar guerrilheiro que desde o ano anterior serpenteava pelo interior do país, enfrentando as tropas do presidente Artur Bernardes. Quando a marcha da coluna revolucionária rumou para o Nordeste, o governo federal não teve dúvidas: convocou os chefes políticos locais para formarem exércitos próprios e combater os rebeldes. No livro O General Góes Depõe, da década de 1950, o próprio general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior das operações contra a Coluna, assume que partiu dele a idéia de convocar jagunços e cangaceiros para fazer frente ao avanço de Prestes. No Ceará, coube ao deputado Floro Bartolomeu, médico e aliado político do Padre Cícero, fazer o convite oficial ao bando de Lampião para se engajar no “Batalhão Patriótico”. Em fevereiro de 1926, Padre Cícero ainda tentou uma solução pacífica. Enviou aos revolucionários uma carta em que os incitava a depor armas. Em troca, prometia-lhes abrigo em Juazeiro do Norte (CE), onde teriam garantias legais de que seriam submetidos a um tratamento justo. De acordo com o relato de Lourenço Moreira Lima, secretário da Coluna revolucionária, a mensagem foi recebida. “Tivemos a oportunidade de ler essa carta, escrita com uma grande ingenuidade, mas da qual ressaltava o desejo íntimo e sincero do padre no sentido de conseguir fazer a paz”, escreveu Moreira Lima em seu diário de campanha, publicado em 1934. O pedido, como se sabe, foi ignorado. Quando Lampião chegou no dia 4 de março à cidade de Juazeiro do Norte, atendendo ao chamado de Floro, este não se encontrava mais por lá. Doente, o deputado federal viajara para o Rio de Janeiro, onde acabaria morrendo. Padre Cícero se viu então com um problema nas mãos: recepcionar o famoso bandido e seus cabras na cidade e, mais ainda, cumprir o que havia sido combinado entre Lampião e o deputado, com a devida aprovação do governo federal: o cangaceiro deveria receber dinheiro, armas e a patente de capitão do “Batalhão Patriótico”. Lampião e outros 49 cangaceiros ocuparam uma casa próxima à fazenda de Floro, nas imediações da cidade, e, em seguida, alojaram-se em Juazeiro do Norte, no sobrado onde residia João Mendes de Oliveira, conhecido poeta popular da região. Foi lá que, da janela, Virgulino atirou moedas ao povo e onde, durante a madrugada, Padre Cícero encontrou o bando. Os bandidos, ajoelhados em deferência ao sacerdote, teriam ouvido o padre tentar convencer seu líder a largar o cangaço logo após voltasse da campanha contra Prestes. Mandou-se então chamar o único funcionário federal disponível na cidade, o agrônomo Pedro de Albuquerque Uchoa, para redigir um documento que, supostamente, garantiria salvo-conduto ao bando pelos sertões e, principalmente, concedia a prometida patente. O papel, como Lampião viria a descobrir tão logo saiu da cidade, não tinha qualquer valor legal, o que não o impediu de assinar, daí por diante, “Capitão Virgulino”. Ciente da desfeita, o cangaceiro não se preocupou mais em dar combate à Coluna Prestes. Já obtivera dinheiro e armas em número suficiente para seguir seu caminho de bandoleiro, agora ostentando orgulhoso a falsa patente militar. Mais tarde, o agrônomo Uchoa justificou seu papel no episódio: diante de Lampião, assinaria qualquer coisa. “Até a destituição do presidente da República”, disse.
Bonnie e Clyde do sertão
O amor de Maria Bonita e Lampião provocou uma revolução no cotidiano dos cangaceiros
Uma sertaneja amoleceu o coração de pedra do Rei do Cangaço. Foi Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, também conhecida como Maria Bonita. Separada do antigo marido, o sapateiro José Miguel da Silva, o Zé de Neném, foi a primeira mulher a entrar no cangaço. Antes dela, outros bandoleiros chegaram a ter mulher e filhos, mas nenhuma esposa até então havia ousado seguir o companheiro na vida errante no meio da caatinga. O primeiro encontro entre os dois foi em 1929, em Malhada de Caiçara (BA), na casa dos pais de Maria, então com 17 anos e sobrinha de um coiteiro de Virgulino. No ano seguinte, a moça largou a família e aderiu ao cangaço, para viver ao lado do homem amado. Quando soube da notícia, o velho mestre de Lampião, Sinhô Pereira, estranhou. Ele nunca permitira a presença de mulheres no bando. Imaginava que elas só trariam a discórdia e o ciúme entre seus “cabras”. Mas, depois da chegada de Maria Déa, em 1930, muitos outros cangaceiros seguiram o exemplo do chefe. Mulher cangaceira não cozinhava, não lavava roupa e, como ninguém no cangaço possuía casa, também não tinha outras obrigações domésticas. No acampamento, cozinhar e lavar era tarefa reservada aos homens. Elas também só faziam amor, não faziam a guerra: à exceção de Sila, mulher do cangaceiro Zé Sereno, não participavam dos combates – e com Maria Bonita não foi diferente. O papel que lhes cabia era o de fazer companhia a seus homens. Os filhos que iam nascendo eram entregues para ser criados por coiteiros. Lampião e Maria tiveram uma filha, Expedita, nascida em 1932. Dois anos antes, aquele que seria o primogênito do casal nascera morto, em 1930. Entre os casais, a infidelidade era punida dentro da noção de honra da caatinga: o cangaceiro Zé Baiano matou a mulher, Lídia, a golpes de cacete, quando descobriu que ela o traíra com o colega Bem-Te-Vi. Outro companheiro de bando, Moita Brava, pegou a companheira Lili em amores com o cabra Pó Corante. Assassinou-a com seis tiros à queima-roupa. A chegada das mulheres coincidiu com o período de decadência do cangaço. Desde que passou a ter Maria Bonita a seu lado, Lampião alterou a vida de eterno nômade por momentos cada vez mais alongados de repouso, especialmente em Sergipe. A influência de Maria Déa sobre o cangaceiro era visível. “Lampião mostrava-se bem mudado. Sua agressividade se diluía nos braços de Maria Déa”, afirma o pesquisador Pernambucano de Mello. Foi em um desses momentos de pausa e idílio no sertão sergipano que o Rei do Cangaço acabou sendo surpreendido e morto, na Grota do Angico, em 1938, depois da batalha contra as tropas do tenente José Bezerra. Conta-se que, quando lhe deceparam a cabeça, a mais célebre de todas as cangaceiras estava ferida, mas ainda viva.
Saiba mais
LIVROS
Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro, Frederico Pernambucano de Mello, Massangana/Girafa, 2004
Um dos melhores estudos sobre cangaço, desmitifica a idéia de Lampião como um “bandido social”.
Lampião: Senhor do Sertão, Élise Grunspan-Jasmin, Edusp, 2006
Compara as várias versões a respeito da vida de Virgulino Ferreira e analisa a permanência do mito Lampião.
A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão, Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, Mauad, 2007
Analisa a violência que cercou o cangaço e Lampião.
Lampião: O Rei dos Cangaceiros, Billy Jaynes Chandler, Paz e Terra, 2003
Biografia de Virgulino Ferreira, baseada em jornais da época.
FONTE: AVENTURAS NA HISTÓRIA
CINEMA E CANGAÇO NA TERRA DO SOL. (CLIQUE AQUI)

Lampião, Virgulino e o mito

70 anos do fim do Cangaço

Karolina Gomes, Monika Hackmayer e Virginia Primo A parceria inabalável de Lampião e Maria Bonita
a madrugada de 28 de julho de 1938, um grupo da polícia liderado pelo tenente João Bezerra, surpreendeu Lampião e seu bando na fazenda Angico, em Sergipe, onde estavam assentados. O Rei do Cangaço
Lampião, sua esposa Maria Bonita e outros 10 cangaceiros foram degolados e tiveram suas cabeças expostas como troféu nas escadarias da Igreja de Santana do Ipanema. Setenta anos depois, a data é lembrada como o marco do fim do Cangaço e o início de sua consagração como um mito.
Tido por muitos como um justiceiro social e por outros como um bandido que matava a sangue frio,
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi o cangaceiro que mais acendeu a imaginação popular.
Uma das lendas que explica seu apelido diz que ao se apresentar ao bando de cangaceiros, aos 17 anos,
Virgulino usou um truque que transformava um fuzil em metralhadora. A mágica consistia em amarrar
ao mesmo tempo um lenço no cotovelo e na peça do disparador, de modo que quando acionasse o gatilho,
o fuzil se armasse. Até hoje no Nordeste esse feito é conhecido como o “pulo do Lampião”.
“Minha mãe me dê dinheiro/ Pra comprar um cinturão/ Pra viver melhor no mundo/ É andar mais
Lampião”. Esses versos, cantados pela população sertaneja da época, representavam a visão popular que
tinha o cangaceiro como uma alternativa ao vazio de poder deixado pelo Estado.
O próprio Virgulino afirmava não confiar na ação da justiça pública, razão pela qual decidiu entrar para o movimento, em 1916. O sertanejo pretendia vingar o assassinato de seu pai, morto em uma busca policial: “Não perdi tempo e resolutamente arrumei-me e enfrentei a luta”, afirmou em entrevista histórica concedida na época ao jornalista Octacílio Macedo.
Vera Ferreira, neta do cangaceiro, complementa:
“Muita gente desconhece os motivos que o levaram (Lampião) a entrar no cangaço, preferindo julgar sem conhecimento, pois é mais fácil julgar pelo que ouviu a buscar conhecer a história.”
A idéia de que Lampião teria sido um Robin Hood sertanejo, que tirava dos ricos para dar aos pobres,
é contestada por muitos, pois a revolução social que Virgulino aparentava defender, estava conivente com a própria elite agrária, que precisava dos bandos e de sua “valentia” para estabelecer a ordem social na então República Velha.
Segundo Carlos Rostand de Medeiros, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Virgulino agia como um guerrilheiro popular sem causa:
“Na verdade, se Lampião tinha alguma causa, no início era a vingança, mas depois foi apenas a ganância por dinheiro e poder”, afirma Rostand, bisneto do falecido coronel Quincó da Rajada.
O pesquisador, que visitou diversas cidades nordestinas onde se estabeleceram grupos de cangaceiros,
confirmou que a morte de Lampião e de Maria Bonita 16 Julho / Dezembro 2007
“O cangaceiro é um personagem que se enraíza na história, mas que consegue se descolar dela. Por isso se transformou em um mito”
Hernani Heffner
deixou seus companheiros sem orientação de como seguir adiante, marcando a morte do Cangaço na sua forma tradicional. Segundo ele, muito se publicou após a morte do Rei do Cangaço: “a esquerda puxou
Lampião para a idéia de contestação do poder público, tornando sua figura apreciada entre os intelectuais”.
Mas sua figura não foi só apreciada por intelectuais e marxistas. Embora Lampião e o bando tivessem tido as cabeças cortadas na emboscada em Sergipe, “suas ações criaram fortes raízes no imaginário do povo que, carente de heróis, ergueu, com dinheiro público, uma estátua para ele, em uma colina de Serra Talhada”, acrescentou Evandro Domingues, professor e colecionador de material sobre o Cangaço.
Até os próprios coronéis necessitaram da apreciação popular das ações de Lampião para justificar a impunidade dos cangaceiros, conforme explica o jornalista e escritor, Júlio José Chiavenato, no livro
Cangaço – A força do coronel.
Como explicar a vitória de um pequeno bando sobre a polícia de oito estados se não pelos “superpoderes”
dos cangaceiros? Ou seja, a própria polícia, muitas vezes subornada pelo movimento, supervalorizava
a “valentia” cangaceira para encobrir sua deficiência.
“Não é muito diferente do que vemos nas favelas
brasileiras atualmente...”, comentou o colecionador Evandro Domingues.
A permanência na atualidade de um poder paralelo, da corrupção policial e da conivência popular
com a criminalidade têm origem na herança do coronelismo e do Cangaço, afirma também o pesquisador
Rostand de Medeiros. Para ele, o que estava em jogo era o interesse econômico: “Sua organização era
baseada no dinheiro, na propina dada aos policiais e autoridades que lhe forneciam armas. No Rio de Janeiro, traficante não dura muito, por que então Lampião viveu 18 anos no Cangaço? Serão apenas suas
habilidades guerreiras? Sua invencibilidade? Corpo fechado? Nada disso, apenas grana”, pontuou.
Terra sem lei
A grande seca de 1877 é o pano de fundo para o surgimento do Cangaço. A seca arrasou o Nordeste,
criou uma massa de flagelados, além de tumultos em várias regiões: vilas eram invadidas e os saques
eram freqüentes. O banditismo se revelou uma revolta espontânea contra a situação social. Assaltos a
fazendas, seqüestros e grandes roubos a comboios e armazéns faziam parte deste cenário.
Nesse sertão desestruturado, vários coronéis perderam o poder. No sul do Ceará, no Vale do Cariri, em
1901, os coronéis usaram pela primeira vez, de modo organizado, bandos de sertanejos para impor a “ordem social”. Dos retirantes que se refugiaram no Vale do Cariri, em busca da proteção do Padre Cícero surgem grupos rebeldes que, além de agir sob a vontade dos coronéis, partiam para o crime como forma de sobrevivência e revolta contra as classes dominantes.
O fanatismo religioso reuniu grupos que entoavam cantos e ladainhas, à espera de um milagreiro. Figuras
como Padre Cícero, Antônio Conselheiro e José Agenda 2008 17 Coiteiros: a polícia chama de “coiteiros” todas as pessoas que, de alguma forma, ajudam os cangaceiros. Os residentes no interior do sertão – moradores, vaqueiros e criadores, por exemplo – se inserem, também, nessa categoria.
Quem era quem no Cangaço?
O coronel: o dono da terra; representa o legítimo árbitro social, mandando em todos (do padre à força policial), com o apoio integral da máquina do Estado. Contrariar o coronel, portanto, é algo a que ninguém se atreve.
Jagunços ou capangas: aqueles assalariados que trabalham para os “coronéis” como vaqueiros, agricultores ou mesmo assassinos, defendendo com unhas e dentes os interesses do patrão, de sua família e de sua propriedade.
Volantes: para combater o Cangaço, esse novo fenômeno social, o Poder Público cria as “volantes”. Nestas forças policiais, os seus integrantes se disfarçavam de cangaceiros, tentando descobrir os seus esconderijos. Logo, ficava bem difícil saber ao certo quem era quem.
Do ponto de vista dos cangaceiros, eles eram, simplesmente, os “macacos”.
Ilustrações Flavio Colin
Maria surgiram na história como uma forma de confortar a massa de sertanejos, desolada pela dificuldade
de acesso à terra.
Assim como Virgulino Ferreira, o primeiro líder cangaceiro entrou para o Cangaço por vingança. Jesuíno
Alves de Melo Calado, o “Jesuíno Brilhante”, famoso por sua pontaria, começou a agir em 1870, após o episódio em que seu irmão levou uma surra de policiais.
“A índole do nordestino é, normalmente, humilde,pacífica e cordata. É um sujeito bonachão, alegre e divertido, embora duro e rude em suas maneiras. Mas quando resolve dizer não, o nordestino vira leão
e grita sua revolta na cara da minoria opressora”, afirma o texto da jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, no site oficial que mantém sobre o avô.
O último dos cangaceiros, que herdou o poder de Lampião, foi Corisco, o “Diabo louro”, interpretado
por Othon Bastos no filme Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha. Corisco e sua esposa
Dadá pertenceram ao grupo de Lampião. Corisco foi assassinado dois anos após a morte do Rei do Cangaço e também teve a cabeça decepada e exposta.
Cangaço cultural
Com exceção do pioneirismo romântico de Franklin Távora, que escreveu em 1876 O cabeleira, a literatura
brasileira chega ao tema do Cangaço com certo atraso. O romance Os cangaceiros, de José Lins do
Rego, e a peça Lampião, de Rachel de Queiroz surgem 15 anos após a emboscada de 1938. A literatura popular, por sua vez, já se dedicava ao assunto desde a virada do século: o mais antigo folheto sobre um
cangaceiro – A vida de Antônio Silvino, de Francisco das Chagas Batista – foi publicado em 1904.
A literatura de cordel, praticada, sobretudo, em Pernambuco, Paraíba e Ceará, tratava de forma fantasiosa as façanhas de Lampião, ora refletindo o medo ora a admiração da mentalidade popular.
Descompromissados, satíricos e muitas vezes sádicos 18 Julho / Dezembro 2007
“Uma vez numa cidade
Lampião apareceu
Cinco rapazes pegou
E de punhal abateu
Tirando o sangue de um deles
Um de seus cabras bebeu.
Um rapaz que estava noivo
Num esteio ele amarrou
A noiva fez ficar nua
Com ferro em brasa a marcou
E ao noivo desesperado
O criminoso castrou”.
(Combate e morte de Lampião, de
Zé Vicente)
“Logo nos primeiros tiros
Nosso povo esmoreceu
Cinco morreram na bala
E quarenta e quatro correu...”.
(O que me disse um soldado que milagrosamente escapou das unhas de Lampião, de João Martins de
Ataíde)
“O vigia foi e disse A Satanás no salão:
— Saibo vossa senhoria
Que aí chegou Lampeão
Dizendo que quer entrar
E eu vim lhe perguntar
Se dou-lhe o ingresso ou não.
— Não senhor, Satanás disse
Vá dizer que vá embora
Só me chega gente ruim
Eu ando muito caipora
Eu já estou com vontade
De botar mais da metade
Dos que tenho aqui p’ra fora”.
(Chegada do Lampião ao inferno,
José Pacheco)
“Mas quando resolve dizer não,
o nordestino vira leão e grita
sua revolta na cara da
minoria opressora”
Vera Ferreira
Histórias de Lampião
Fotos de Lampião
com as matanças dos cangaceiros, os autores de cordéis
improvisavam versos a serem distribuídos em
feiras e botequins, impressos sempre com as famosas
ilustrações de xilogravura.
No cinema, o atraso se repete. É tardiamente e também
pela via popular que o Cangaço chega às grandes
telas. Em O cangaceiro (1954), ao som de Olê, mulher
rendeira, a figura do cangaceiro alcança a crítica internacional.
Premiado no Festival de Cannes, o filme
de Lima Barreto mostra o cangaceiro como representação
de uma identidade tipicamente brasileira.
“O que se vê no filme é o cangaceiro idealizado
como um sujeito corajoso, raçudo, ético, violento,
mas com uma violência que segue uma lógica. Como
um sujeito que se afirma a partir da condição de autonomia
perante a lei, perante a polícia, perante a
sociedade”, explica Hernani Heffner, professor de cinema
da PUC-Rio e conservador da Cinemateca do
Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.
A essa visão folclórica, Glauber Rocha acrescentou
a visão do Cangaço como resistência popular, ao dirigir,
em pleno ano de 1964, Deus e o diabo na terra do
sol. Inspirado na linguagem metafórica da literatura
de cordel, Glauber afirma seu discurso de revolução
popular através da frase repetida no filme: “O sertão
vai virar mar, o mar vai virar sertão”.
A partir da década de 1960, filmes com a temática
sobre Cangaço tornam-se um gênero comercial
do cinema nacional. Ao transportar a linguagem do
Western americano, o cinema brasileiro cria o gênero
Nordestern, de forte apelo sobre o público.
Em 1965, entretanto, com Memórias do Cangaço,
Paulo Gil Soares traça uma consideração mais real
sobre esse acontecimento. No filme, ele recupera as
únicas imagens filmadas sobre Lampião e seu bando,
feitas pelo fotógrafo Benjamin Abrahão na década
de 1930, reinserindo o cangaceiro dentro de um
circuito histórico e social.
Essa visão minuciosa sobre o mito foi retomada em
filmes mais recentes, como Baile perfumado (1997),
de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, que mostra a decadência
de Lampião pouco tempo antes de sua
morte. Sobre a permanência da atração cultural
pelo tema, o pesquisador afirma: “O cangaceiro
é um personagem que se enraíza na história, mas
que consegue se descolar dela. Por isso se transformou
em um mito. O mito pode servir para qualquer
discurso, sobretudo quando você tem valores
positivos para associar a ele. O cangaceiro é o justo,
o corajoso, quando a situação propicia a isso.
Quando não, ele simplesmente aplica a lei dele,
que é a lei do direito natural”.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Lampião - Virgulino - Cangaço - Fora da Lei - Mito

O cangaço no Nordeste

Ao lado de Canudos e Contestado, outro fenômeno característico da época foi o banditismo social. Em sua forma característica, ele surgiu no nordeste brasileiro e ficou conhecido como cangaço. Suas primeiras manifestações ocorreram por volta de 1870 e perduraram até 1940.
O banditismo social não foi um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ele apareceu em muitas regiões do mundo que tinham características semelhante às do nordeste brasileiro, como na Sicília (Itália), Ucrânia e na América Espanhola. Em grande parte, o banditismo social foi, como Canudos e o Contestado, uma reação do tradicionalismo rural ao avanço do capitalismo.
O bandido social diferia do bandido comum por sua origem. Em geral, tornava-se um "fora-da-lei" como resposta às injustiças e perseguição pela comunidade, que, não raro, engrandecia seus feitos de coragem e valentia. Apesar disso, diferentemente do revolucionário, o bandido social não era necessariamente contra os dominantes, nem era portador de projetos de transformação social. O seu prestígio vinha do fato de apresentar-se como porta-voz de resistência de um mundo em dissolução

Origem do cangaço

Desde o século XVIII, com o deslocamento do centro dinâmico da economia para o sul do Brasil, as desigualdades sociais do nordeste se agravaram. Entretanto, no sertão, onde predominava a pecuária, consolidou-se uma forma peculiar de relação entre grandes proprietários e seus vaqueiros. Entre eles, estabeleceram-se laços de compadrio (tornavam-se compadres), cuja base era a relação de fidelidade do vaqueiro ao fazendeiro, com este dando proteção em troca da disponibilidade daquele em defender, de armas nas mãos, os interesses do seu patrão.
Os conflitos eram constantes, devido à imprecisão dos limites geográficos entre as fazendas e às rivalidades políticas, transformadas em verdadeiras guerra entre poderosas famílias. Cada uma destas fazia-se cercar de jagunços (capangas do senhor) e de cabras (trabalhadores que ajudavam na defesa ), formando verdadeiros exércitos particulares.
Nos últimos anos do Império, depois da grande seca de 1877-1879, com o agravamento da miséria e da violência, começaram a surgir os primeiros bandos armados independentes do controle dos grandes fazendeiros. Por essa época ficaram famosos os bandos de Inocêncio Vermelho e de João Calangro.
Contudo, somente na República o cangaço ganhou a forma conhecida, com Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Que aterrorizou o nordeste de 1920 a 1938. Havia uma razão para esse fato. Com a proclamação da República em 1889, implanta-se no Brasil o regime federalista, que concedeu uma ampla autonomia às províncias, fortalecendo as oligarquias regionais. O poder dessas oligarquias regionais de coronéis se fortaleceu ainda mais com a política dos governadores iniciada por Campos Sales (1899-1902). O poder de cada coronel era medido pelo número de aliados que tinha e pelo tamanho de seu exército particular de jagunços.
Esse fenômeno era comum a todo o Brasil, mas nos estados mais pobres, como Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, os coronéis não eram suficientemente ricos e poderosos para impedir a formação de bandos armados independentes. Foi nesse ambiente que nasceu e prosperou o bando de Lampião, por volta de 1920, coincidindo o seu surgimento com a crise da República Velha. Depois da morte de Lampião, em 1938, nenhum outro bando veio ocupar o seu lugar. Com o fim da República Velha em 1930, encerrava-se também a era do cangaço.
Lampião
Cangaceiro pernambucano (1900-1938). Virgulino Ferreira da Silva nasce em Vila Bela, atual Serra Talhada. Começa a agir em 1916, depois que a perseguição de sua família por um coronel da região resulta na morte de seus pais. Foge para o sertão e junta-se a um grupo de cangaceiros. Seu bando obtém fama pela crueldade e violência de suas ações. Virgulino ganha o apelido de Lampião por se gabar dos clarões - "tal qual um lampião" - provocados por sua espingarda nos enfrentamentos com a polícia. Conhecido também como Rei do cangaço, atua principalmente no sertão de Sergipe e da Bahia. Na época da Coluna Prestes é convidado pelo Padre Cícero para ajudar o governo no combate aos revoltosos . Aceita o convite e aproveita a oportunidade para melhor armar seu bando. Em 1929 conhece Maria Bonita , que se integra ao grupo e lhe dá uma filha, Maria Expedita. Em julho de 1938, seu bando é surpreendido.
Cangaço
Lampião é o número 1, por uma tropa volante no sertão de Sergipe. Morrem 11 cangaceiros, entre eles Lampião e Maria Bonita. Suas cabeças são cortadas e, por quase 30 anos, conservadas no Museu da Faculdade de Medicina da Bahia.
Fonte: members.tripod.com
Cangaço
Há milhares de anos o Nordeste do Brasil viveu momentos difíceis, atemorizado por grupo de homens que espalhava o terror por onde andava. Eram os cangaceiros, bandidos que abraçaram a vida nômade e irregular de malfeitores por motivos diversos. Alguns deles foram impelidos pelo despotismo de homens poderosos.
Os cangaceiros - História do cangaço
Este foi o caso do mais conhecido dos cangaceiros, o "Lampião", que cometeu o seu primeiro assassinato para vingar a morte do pai, vitima de um crime político.
Os cangaceiros conseguiram dominar o sertão durante muito tempo, porque eram protegidos de "coronéis", que os utilizavam para conseguir seus torpes objetivos pessoais.
Cangaço
Lampião, o cangaço e os cangaceiros
A vida do cangaço encontra-se focalizada em várias obras de nossa literatura, como "O Cabeleira", romance de Franklin Távora, e "Lampião", drama de Raquel de Queirós. O cinema nacional também se valeu, várias vezes, do sugestivo tema, sendo " O Cangaceiro" o filme que maior sucesso alcançou no exterior.

Lampião, um Líder Nato. Por: Cesar Megale

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Olho no Olho...
 por Cesar Megale.
..
Carlos Megale entre João de Sousa e Rubinho Lima

Lampião era um lider nato e sabia como ninguém, aglutinar em volta de si, os mais perigosos cangaceiros. Muito esperto, perspicaz e inteligente, ele era a cabeça pensante que movia o cangaço. Todos o respeitavam pelo poder de liderança que ele tinha.

A maior prova disto, é que depois de sua morte em Angico, seus subgrupos vagaram sem rumo e sem guarida pela caatinga. Sem a presença do grande chefe, muitos foram mortos, presos e a maioria se entregou a policia nos meses seguintes. É dificil saber qual foi o cangaceiro mais valente. Para ser um valente, uma pessoa precisa antes de tudo, ter valor, força, ser enérgico e corajoso.

Como os cangaceiros agiam em bandos e muitas vezes sob o efeito de bebidas alcoolicas, fica dificil saber quem realmente reunia todas as qualidades para ser um verdadeiro valente.

Lampião em algumas ocasiões - como por exemplo em Queimadas - foi desafiado e não ousou lutar com o soldado que o desafiou...Jararaca por sua vez, ao perceber que seria morto ao chegar ao cemitério de Mossoró, manteve a altivez diante da morte e em momento algum lamentou sua sorte ou implorou pela vida...Zé Baiano ao ser dominado e vendo que ia ser morto, implorou pela vida e ofereceu dinheiro para ser poupado pelos seus algozes...são dois comportamentos completamente diferentes... analisando por este prisma, podemos afirmar que Jararaca foi muito mais valente e corajoso que Zé Baiano...


A relação entre Lampião e Corisco era de respeito. Não acredito que um confiasse no outro, ao ponto de confiar-lhe a propria vida. Naquele meio em que viviam, todos confiavam desconfiando e Lampião não confiava plenamente em ninguém. É dificil avaliar se Corisco estivesse em Angico a história seria diferente. Como o grande trunfo das volantes em Angico foi o fator surpresa, quando muitos cangaceiros ainda estavam deitados dormindo e outros despertando sonolentos e sem reflexos, acredito que a presença do Diabo Loiro não faria muita diferença.

Sobre Angico, tudo já foi exaustivamente pesquisado e dissecado. Não existe mais nenhum segredo a ser desvendado.

O que acontece é que muitas pessoas não conseguem separar os depoimentos verdadeiros dos fantasiosos e, preferem acreditar em "mistérios". Nem todos conseguem entender o que aconteceu em Angico em toda a sua dimensão.

Para concluir, em minha ótica, Virgolino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, era um cangaceiro e consequentemente um bandido, um fora da lei. Apesar de tudo de mal que fez, tornou-se um mito popular e hoje faz parte da cultura nordestina.

Um abraço aos amigos do Cariri Cangaço.

Carlos César de Miranda Megale
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Lampião
Ir para a página  Lampião - Parte 2
Ambição, Injustiça, Violência, Traição e Morte... 

 
 
 
    Nascido em 1898, no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, Pernambuco, Virgulino Ferreira da Silva viria a transformar-se no mais lendário fora-da-lei do Brasil. O cangaço nasceu no Nordeste em meados do século 18, através de José Gomes, conhecido como Cabeleira, mas só iria se tornar mais conhecido, como movimento marginal e até dando margem a amplos estudos sociais, após o surgimento, em 1920, do cangaçeiro Lampião, ou seja, o próprio Virgulino Ferreira da Silva. Ele entrou para o cangaço junto com três irmãos, após o assassinato do pai. 
  Com 1,79m de altura, cabelos longos, forte e muito inteligente, logo Virgulino começou a sobressair-se no mundo do cangaço, acabou formando seu próprio bando e tornou-se símbolo e lenda das histórias do cangaço. Tem muitas lendas a respeito do apelido Lampião, mas a mais divulgada é que alguns companheiros ao ver o cano do fuzil de Virgulino até vermelho, após tantos tiros trocados com a volante (polícia), disseram que parecia um lampião. E o apelido ficou e o jovem Virgulino transformou-se em Lampião, o Rei do Cangaço. Mas ele gostava mesmo era de ser chamado de Capitão Virgulino. 
  Lampião era praticamente cego do olho direito, que fôra atingido por um espinho, num breve descuido de Lampião, quando andava pelas caatingas, e ele também mancava, segundo um dos seus muitos historiadores, por conta de um tiro que levou no pé direito. Destemido, comandava invasões a sítios, fazendas e até cidades. Dinheiro, prataria, animais, jóias e quaisquer objetos de valor eram levados pelo bando. "Eles ficavam com o suficiente para manter o grupo por alguns dias e dividiam o restante com as famílias pobres do lugar", diz o historiador Anildomá Souza. Essa atitude, no entanto, não era puramente assistencialismo. Dessa forma, Lampião conquistava a simpatia e o apoio das comunidades e ainda conseguia aliados. 
  Os ataques do rei do cangaço às fazendas de cana-de-açúcar levaram produtores e governos estaduais a investir em grupos militares e paramilitares. A situação chegou a tal ponto que, em agosto de 1930, o Governo da Bahia espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, "de qualquer modo, o famigerado bandido". "Seria algo como 200 mil reais hoje em dia", estima o historiador Frederico Pernambucano de Mello. Foram necessários oito anos de perseguições e confrontos pela caatinga até que Lampião e seu bando fossem mortos. Mas as histórias e curiosidades sobre essa fascinante figura continuam vivas. 
  Uma delas faz referência ao respeito e zelo que Lampião tinha pelos mais velhos e pelos pobres. Conta-se que, certa noite, os cangaceiros nômades pararam para jantar e pernoitar num pequeno sítio - como geralmente faziam. Um dos homens do bando queria comer carne e a dona da casa, uma senhora de mais de 80 anos, tinha preparado um ensopado de galinha. O sujeito saiu e voltou com uma cabra morta nos braços. "Tá aqui. Matei essa cabra. Agora, a senhora pode cozinhar pra mim", disse. A velhinha, chorando, contou que só tinha aquela cabra e que era dela que tirava o leite dos três netos. Sem tirar os olhos do prato, Lampião ordenou ao sujeito: "Pague a cabra da mulher". O outro, contrariado, jogou algumas moedas na mesa: "Isso pra mim é esmola", disse. Ao que Lampião retrucou: "Agora pague a cabra, sujeito". "Mas, Lampião, eu já paguei". "Não. Aquilo, como você disse, era uma esmola. Agora, pague." 
  Criado com mais sete irmãos - três mulheres e quatro homens -, Lampião sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês, costurava e era habilidoso com o couro. "Era ele quem fazia os próprios chapéus e alpercatas", conta Anildomá Souza. Enfeitar roupas, chapéus e até armas com espelhos, moedas de ouro, estrelas e medalhas foi invenção de Lampião. O uso de anéis, luvas e perneiras também. Armas, cantis e acessórios eram transpassados pelo pescoço. Daí o nome cangaço, que vem de canga, peça de madeira utilizada para prender o boi ao carro. 
  Em 1927, após uma malograda tentativa de invadir a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Lampião e seu bando fugiram para a região que fica entre os estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. O objetivo era usar, a favor do grupo, a legislação da época, que proibia a polícia de um estado de agir além de suas fronteiras. Assim, Lampião circulava pelos quatro estados, de acordo com a aproximação das forças policiais. 
Numa dessas fugas, foi para o Raso da Catarina, na Bahia, região onde a caatinga é uma das mais secas e inóspitas do Brasil. Em suas andanças, chegou ao povoado de Santa Brígida, onde vivia Maria Bonita, a primeira mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros. A novidade abriu espaço para que outras mulheres fossem aceitas no bando e outros casais surgiram, como Corisco e Dadá e Zé Sereno e Sila. Mas nenhum tornou-se tão célebre quanto Lampião e Maria Bonita, que em algumas narrativas é chamada de Rainha do Sertão. 
  Da união dos dois, nasceu Expedita Ferreira, filha única do lendário casal. Logo que nasceu, foi entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos. Durante os cinco anos e nove meses que viveu até a morte dos pais, só foi visitada por Lampião e Maria Bonita três vezes. "Eu tinha muito medo das roupas e das armas", conta. "Mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava sentada no colo pra conversar comigo", lembra dona Expedita, hoje com 75 anos e vivendo em Aracaju, capital de Sergipe, Estado onde seus pais foram mortos.
  Na madrugada de 28 de julho de 1938, o sol ainda não tinha nascido quando os estampidos ecoaram na Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco. Depois de uma longa noite de tocaia, 48 soldados da polícia de Alagoas avançaram contra um bando de 35 cangaceiros. Apanhados de surpresa - muitos ainda dormiam -, os bandidos não tiveram chance. Combateram por apenas 15 minutos. Entre os onze mortos, o mais temido personagem que já cruzou os sertões do Nordeste: Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião. 
 
 
Mesmo após mais de 70 anos depois da sua morte, Virgulino Ferreira da Silva, aquele menino do sertão nordestino que se transformou no temido Lampião, ainda não foi esquecido. E sua extraordinária história leva a crer que nunca o será.  Matéria baseada na edição 135 da revista Os Caminhos da Terra, por David Santos Jr. e em relatos de Gervásio Aristides da Silva (Pernambuco), Rosalvo Joaquim (Sergipe) E Lampião, Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa (fotos).

Ambição, Injustiça, Violência, Traição e Morte... 
  Lampião teve um processo tramitando na justiça de Pernambuco por quase 70 anos, onde ele e seu bando eram acusados da morte de 3 pessoas em 1925. O processo foi instaurado em 1928 e, mesmo após a morte do Rei do Cangaço, não foi julgado, extinto ou arquivado.   E o processo, por mais incrível que possa parecer, mostrando o quanto é complicado o labirinto do nosso Judiciário, continuou aberto no fórum de Flores, cidade próxima a Serra Talhada, onde nasceu Lampião. De acordo com o juiz da cidade, na época, não foram apresentados os atestados de óbito dos réus, como exige a lei. (Isso é que é seguir um manual! - NE).
 Somente em 1997, 69 anos após a abertura do processo, o juiz Clóvis Mendes, de Serra Talhada, julgou a prescrição da ação  com base no fim do prazo legal de 20 anos...Então, finalmente, o processo contra Lampião e seu bando foi arquivado! Se estive vivo, o capitão Virgulino certamente diria: " A justiça (dos homens) tarda...e falha!"   Lampião e Maria Bonita tiveram uma filha, Expedita, que lhes deu 3 netos: Cleyse Mary, Djair e Vera Lucia, a jornalista que já há anos vem lutando para preservar a memória dos avós e corrigir algumas injustiças feitas aos dois, diante de tantas lendas surgidas sobre os dois, sobrepujando os fatos. Os dados e fotos dos netos (ainda crianças), constam do livro Lampião, Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa, de onde foram extraidas algumas das fotos mostradas aqui.
  Lampião teve três irmãos ao lado dele no cangaço: Antonio, Livino e Ezequiel, de apelido Pente Fino. Todos os três morreram antes de Lampião, em combate com as volantes.
 O primeiro a rotular Maria Bonita como a Rainha do Cangaço, foi o cangaceiro e cantador Zabelê, do bando de Lampião, claro. Zabelê sobreviveu à emboscada  de Angicos (veja abaixo porque) e ainda escreveu um livro sobre Lampião.
  Como escrevi acima, as lendas sobrepujaram até o próprio Rei do Cangaço. Verdade ou não, elas ficaram, recheando a verdadeira história de Lampião com fatos engraçados e muitas versam também sobre o lado justiceiro de Lampião. Além da história da cabra da velhinha, na página anterior, tem também a do sal, que é meio semelhante: Lampião e seu bando foram acolhidos por uma senhora, também de idade avançada, e ele pediu a ela para preparar um jantar para o bando. A velhinha, não tendo quase nada em casa, teve que fazer um caldeirão de sopa às pressas para os famintos cangaçeiros. Com a pressa e o medo, ela acabou esquecendo de colocar sal na sopa...
 A sopa foi servida e todos começaram a sorvê-la, sem problemas, mas um dos cabras, novato no bando, para talvez fazer bonito diante de Lampião ou por idiotice mesmo, começou a gritar com a pobre velha sobre a falta de sal. Lampião terminou sua sopa sem nada dizer. Depois, tranquilamente, perguntou ao bando se alguém sentiu falta de sal. Exceto o tal reclamante, o restante, que não era besta, disse que não, que a sopa estava ótima!   Então Lampião perguntou à velhinha se tinha mais sal em casa. Ela disse que sim e ele então mandou ela trazer um quilo! Ela correu a obedecer. Quando veio com o sal, Lampião mandou ela despejá-lo no prato do sujeito que havia reclamado, e ordenou: - Você reclamou da falta de sal, cabra, pois agora tem aí bastante sal, e você vai comê-lo até limpar o prato!
  Apesar dos lamentos do homem, Lampião o obrigou a comer todo o sal do prato e, quando ele pedia água, Lampião não deixava que ele bebesse. E assim foi. Quando o cangaçeiro, até verde de tanto comer sal, sentindo suas entranhas em brasa, terminou, Lampião o expulsou, mandando que o mesmo sumisse de sua frente, ameaçando que, se o encontrasse novamente, iria sangrá-lo. É claro que o tal sumiu até hoje...Saindo da casa, já um pouco distante, Lampião parou, olhou para trás, coçou a cabeça e comentou com um cangaçeiro próximo a ele: - E num é que aquela sopa tava uma disgraçeira de insôssa? - E o cabra ao seu lado, concordou imediatamente: - Tumém achei, capitão. Tumém achei...
  Já do apelido Lampião, tem a lenda narrada na página anterior e uma outra que é sobre uma noite em que Virgulino (que ainda não era Lampião) e seu bando estavam numa bodega (tipo de hospedaria à beira da estrada), e um dos homens deixou cair o cigarro. O vento havia apagado o candieiro, então Virgulino falou que ia disparar seu fuzil para fazer um clarão, até o sujeito achar o cigarro. E a cada tiro que dava, ele gritava: acende, lampião! Acende, lampião! E assim surgiu o famoso e temido apelido.
  Os grandes chefes de cangaceiros, antes de Virgulino entrar no cangaço, eram: Antonio Quelé, Casemiro Honório, Né Pereira e Antonio Silvino, foi nos bandos destes últimos que Virgulino iniciou-se na senda de crimes.
  Abraão Benjamim, judeu ou árabe naturalizado brasileiro, o autor Eduardo Barbosa não especifica. No livro ele é chamado de Turcão, o que torna mais difícil saber sua descendência. Ele foi o primeiro e último homem a filmar Lampião. Ele acompanhou os cangaceiros durante 6 meses, nos acampamentos e nas batalhas com as volantes, e são da autoria dele o filme real sobre Lampião e centenas de fotos do cangaçeiro, de Maria Bonita e do bando. Benjamim foi assassinado logo após esse trabalho de grande valor jornalístico, com 52 facadas em Vila Bela, por desafetos de Lampião.
  Zabelê, sanfoneiro e repentista oficial do bando, disse em depoimento que foi o próprio Lampião quem fez a letra e música de Mulher Rendeira.
  Lampião reinou absoluto no cangaço nordestino por 20 anos. E mesmo antes de ser enganado pelas autoridades, recebendo a patente de capitão e a garantia de anistia para ele e todo o bando, para enfrentar a Coluna Prestes, fato que foi testemunhado pelo seu próprio padrinho o Padre Cícero Romão, outra lenda do Nordeste, sempre manteve um status quo de comandante de um exército. Seu bando, composto por mais de 100 homens, tinha um tipo de “estado-maior”, formado pelos homens de mais confiança. Então, normalmente, para confundir as volantes, Lampião dividia o bando em 3 grupos, sendo um liderado por ele próprio e os outros 2, pelos seus “lugares-tenentes”. Foi por causa dessa estratégia que alguns do bando escaparam à emboscada em Angicos, como Zabelê e Corisco, chamado também de Diabo Loiro, que segundo autores de relatos sobre o cangaço, foi quem vingou a morte de Lampião. Corisco foi morto pelas volantes 2 anos depois.
  Mas, assim como Napoleão, que errou na estratégia da guerra por não contar com os elementos da natureza e Hitler, que sacrificou boa parte de seus homens por não contar em sua estratégia de dominação com as geladas estepes russas, Lampião também, apesar de usar estratégias de guerrilha, errou ao armar acampamento numa ravina e sem colocar sentinelas. Esse foi seu grande erro em Angicos.
  Também, ao que parece uma sina de todo grande guerreiro, o fator traição pesou mais que tudo. Zumbi foi traido e morto; Tiradentes foi traido e morto; Beckman foi traido e morto; Zapata, herói mexicano, foi traido e morto; o rei Leônidas, de Esparta, foi traido e morto; Jesse James, traido e morto; e Lampião, como que fechando a sina, em 1938, é traido e morto.
  Nos registros sobre os pertences de Lampião, feitos pela polícia militar de Alagoas, consta a famigerada pistola Parabellum, alemã, 9mm, fabricada em 1918, número de série 97. 
  Através de um exame de DNA realizado nos EUA, foi descoberto em 1994 o segundo filho de Lampião e Maria Bonita. Trata-se de João Ferreira da Silva, conhecido por João Peitudo, 62 anos, que morreu de morte natural no dia 26 de junho de 2000,  em Juazeiro do Norte, a 563 quilômetros de Fortaleza. 
 O filho de Lampião deixou cinco filhos, mas apenas um (Francisco Ferreira da Silva), morava com ele no bairro Pirajá, em Juazeiro. Os outros quatro residem em São Paulo. 
Nascido em 1938, segundo a mídia, João Peitudo foi deixado com 42 dias de vida na casa de dona Aurora da Conceição, em Juazeiro, durante a passagem do bando de Lampião pela região do Cariri. Lampião furou as orelhas do filho com um punhal com o objetivo de deixar uma marca para reconhecê-lo quando voltasse para pegar. Nunca retornou. João Peitudo era funcionário aposentado da Prefeitura de Juazeiro. Com a morte de João Peitudo, a única herdeira viva de Lampião é Expedita Ferreira Nunes, filha do casal de cangaceiros, e que mora em Sergipe. 
 
* Mais trabalhos sobre Lampião:
Lampião, Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa
Almas de Lama e Aço, de Gustavo Barroso
Bandoleiros das Caatingas, de Melchíades da Rocha
Lampião em Mossoró, de Raimundo Nonato
Na Terra de Lampião, de Alexandre Zabelê – O sanfoneiro, testemunha viva da história de Lampião.
Lampião, de Ranulfo Prata
Heróis e Bandidos, de Gustavo Barroso
Lampião, de Optato Gueirós – Major da polícia pernambucana e ex-comandante das Volantes – Também testemunha viva. 


Lampião - Um homem fora da Lei


Lampião o Virgulino
Brasileiro do sertão
Rebelou-se aos poderes
Perante seus irmãos.
Com seus cabras lá nas matas
Piedade não tinha não
Enfrentavam a quem aparecia
Inclusive a volante ou o pelotão.
Por muitas vezes brigou
Atirou e com a peixeira ao inimigo furou
Pela região nordestina viveu
Onde sua vida passou.
Lampião, lenda viva
Herói ou fora-da-lei?
Ao oprimido muitas vezes ele ajudou
Até parecia um rebelde rei.
Fazia sua própria justiça
Coisa não aceitável pelo Estado
Usou as próprias mãos
Mas tornou-se pela Lei procurado.
A verdadeira justiça é invencível
Mantida por orgãos do Governo e o certo ela faz
Mas o Lampião pensava diferente
E hoje entre os mortos ele jazz.
Meus avós me contaram
Aventuras de Lampião
Era um homem destemido
Do cangaço era o patrão.
(Antonio Cícero da Silva)